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Psicologia e Comportamento.


                 

Transtorno Obsessivo-Compulsivo e Tiques na infância

 

Artigo escrito por Carmen Alcântara*

 

 

Rituais e superstições fazem parte do comportamento humano desde os tempos primitivos. Eles garantem e facilitam uma rede complexa de comunicação social nas várias culturas. Do ponto de vista do indivíduo, eles auxiliam no controle da ansiedade em fases de transição e são normalmente fonte de prazer.

 

Crianças pequenas, em idade pré-escolar também apresentam rituais e superstições e estes fazem parte do desenvolvimento normal da criança. É comum crianças na faixa entre 2 e 4 anos apresentarem comportamentos repetitivos nos horários de dormir, comer e tomar banho.

 

Entre as crianças mais velhas, a partir dos sete anos, os rituais estão mais presentes nos jogos que passam a ter regras rígidas e coleções dos mais variados objetos.

Geralmente estes comportamentos têm como função básica assegurar a sensação de controle das situações.

 

As superstições são divididas entre aquelas que trazem sorte ou má sorte, ou ainda aquelas que protegem contra eventos negativos. As crianças entre 2 e 6 anos têm suas superstições impregnadas de fantasias que são características do pensamento pré-lógico ou mágico.

Em crianças maiores, que já possuem o pensamento lógico ou concreto, as superstições se modificam e passam a ser direcionadas para aspectos do próprio desempenho, nos jogos e (ou) nas provas escolares.

 

Em algumas pessoas, essa série de comportamentos e superstições passam por um processo de descontrole, relacionado na maioria das vezes a um período de maior tensão ou stress.

Elas passam a exibir os comportamentos repetitivos de uma maneira exagerada e com prejuízo da capacidade adaptativa.

 A esses comportamentos, damos o nome de Transtorno Obsessivo-Compulsivo (TOC) e Transtorno de Tiques (TT).

 

É importante reconhecer quando os comportamentos das crianças deixam de ser adaptativos e passam a ser disfuncionais, tornando-se patológicos.

 

O diagnóstico do TOC na infância nem sempre é simples, pois frequentemente a criança esconde seus sintomas e os pais podem levar muito tempo até perceberem o problema. (Mercadante et al)¹ É conhecida por isso, como a doença do “segredo”.

Os sintomas podem estar relacionados ao lavar as mãos de forma excessiva; evitamento de contato físico ou de certos objetos.

Pode haver muito tempo gasto no banheiro (rituais de limpeza); para dormir (arrumando os objetos de determinada maneira); ou para comer (separando a comida, por ex.).

Normalmente considera-se patológico quando a criança perde mais de uma hora nestes comportamentos repetitivos, tendo prejuízo nas suas atividades cotidianas.

 

Como a criança tende a esconder os sintomas, além de sua imaturidade cognitiva, fica difícil ela expressar de forma clara o conteúdo de seus pensamentos obsessivos. Já os tiques ficam mais fáceis de serem observados, pois habitualmente começam na região da face, com tiques simples como piscar os olhos, repuxar de boca até outros mais complexos como roer unhas e arrancar os cabelos (tricotilomania).

 

É importante definir as obsessões e as compulsões: obsessões são pensamentos ou imagens recorrentes e persistentes, experimentadas como intrusivas e que geram ansiedade ao paciente, criança ou adulto. Estes tentam ignorá-los ou suprimi-los através de outro pensamento ou de uma ação.

Algumas das obsessões mais relatadas por crianças são:

a)    Idéias de contaminação; a criança fica ansiosa e preocupada com idéias de que germes, sujeiras ou secreções corporais possam fazer mal a ela ou a pessoas de sua família.

b)    Pensamento ou imagens de conteúdo agressivo. A criança fica com medo de ferir-se ou ferir alguém. Muitas vezes não toca em facas e tesouras por medo.

 

As compulsões são comportamentos repetitivos ou atos mentais que frequentemente têm o objetivo de prevenir ou reduzir o sofrimento e a ansiedade causados pelas obsessões.

Algumas das compulsões mais frequentes são:

a)    Rituais de limpeza

b)    Comportamentos de verificação, ex: a criança levanta da cama várias vezes para ver se a porta da casa está trancada.

c)    Comportamentos de simetria e ordenação.

 

Em algumas crianças que apresentam TOC e/ou Tiques, existe histórico familiar para um ou para outro transtorno. Em gêmeos monozigóticos há uma concordância de 53% a 87% e dizigóticos de 22% a 47%, reforçando a importância de fatores genéticos (segundo estudo de Rasmuuss e Tsuan)2.

Em outros casos não há histórico familiar, ressaltando possíveis situações de mudanças e (ou) stress.

 

Tratamento:

 

O tratamento deve considerar a gravidade dos sintomas, sua influência no desenvolvimento da criança, o suporte familiar e sua psicodinâmica. Esta avaliação pode ser feita por psicólogos ou psiquiatras.

Pacientes que apresentam sintomas leves podem beneficiar-se mais com as orientações dadas aos pais do que com medicamentos.

Em casos mais graves, quando há um comprometimento do desenvolvimento da criança e uma perturbação acentuada de suas atividades cotidianas, deve-se avaliar a necessidade de medicação específica, normalmente prescrita por psiquiatras infantis e (ou) psicoterapia infantil de base psicanalítica ou cognitivo-comportamental.

 

Novos estudos sobre métodos de tratamentos em crianças e adolescentes e sobre a hereditariedade do TOC, continuam sendo realizados.

Em recente publicação no Jornal Folha de São Paulo de 5/4/12, o Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas – FMUSP, está selecionando crianças e adolescentes com o transtorno assim como pais diagnosticados com TOC e Transtorno de ansiedade para novas pesquisas.

 

 

Referências bibliográficas

 

1. Mercadante M, Rosario-Campos MC, Quarantini L,Sato F. As bases neurobiológicas do transtorno obsessivo-compulsivo e da síndrome de Tourette

The neurobiological bases of obsessive-compulsive disorder and Tourette syndrome

Jornal de Pediatria 0021-7557/04/80-02-Supl/S35

Copyright © 2004 by Sociedade Brasileira de Pediatria

 

2. Rasmussen SA, Tsuang MT. Clinical characteristics and family

history in DSM-III obsessive-compulsive disorder. Am JPsychiatry. 1986;143:317-22.

 

 

*Psicóloga e Psicanalista; Mestre pela Faculdade de Medicina - USP.

 

 

  

 

 


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