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Psicologia e Comportamento.


Texto escrito por: Psicóloga Carmen Alcântara*

 O que é terror noturno?

Em primeiro lugar é preciso entender que o sono se divide em dois tipos, o sono REM (Rapid Eyes Moviment), também chamado sono rápido ou paradoxal e o NREM (Não REM) também conhecido como sono lento ou profundo.

 O sono REM tem este nome por causa dos surtos de movimentos oculares rápidos e é também a fase do sono onde ocorrem os sonhos. Tem como característica uma atonia muscular para que o dormidor não saia por aí “encenando o sonho” como ocorre no Distúrbio de Comportamento do Sono REM (encontrado em alguns adultos).

 O sono NREM ou lento é composto por quatro fases ou estágios – do 1 ao 4- sucessivos no tempo.

Ao adormecer, o sono inicia-se pelo estágio 1, ou superficial, e progressivamente alcança os estágios 2,3 e 4,cada vez mais profundos. A seguir, há passagem ao estágio 2 e tem início o sono REM. Este mesmo ciclo se repete por toda a noite, por volta de 4 a 5 vezes, sofrendo algumas alterações em cada um. No primeiro ciclo, tem maior duração os estágios 3 e 4 e estes diminuem progressivamente no decorrer da noite. Por outro lado, o estágio REM é breve nos primeiros ciclos e prolonga-se cada vez mais nos outros.

 O Terror Noturno é um distúrbio do sono descrito pela Classificação Internacional dos Distúrbios do Sono (ICSD, 2ª edição, Softbound, 2005) como uma parassonia, grupo no qual também se inclui o sonambulismo, a enurese, o despertar confusional e os pesadelos, entre outros.

 As parassonias se referem a presença de comportamentos fora do normal que tem lugar durante o sono e podem ocorrer tanto no sono REM quanto no NREM.

 No caso do Terror Noturno, ele ocorre de uma forma geral no primeiro terço da noite, durante o sono NREM. A criança que estava dormindo calmamente senta-se de maneira abrupta na cama e grita intensamente. Pode haver outras vocalizações, como fala, grunhidos, gemidos ou choro, sendo acompanhadas por sintomas de ansiedade e manifestações autonômicas intensas como taquicardia, sudorese e taquipnéia. A criança leva de 5 a 10 min até o despertar completo.

É muito difícil acordar a criança porque ela se encontra nos estágios 3 ou 4 do sono NREM ou seja, em sono profundo.

O terror noturno costuma aparecer por volta dos 2, 3 anos, até mais ou menos 6, 7 anos, quando geralmente desaparecem os sintomas. Contudo em casos mais raros este distúrbio pode continuar até a fase adulta.

Há um componente genético e a tensão emocional e a fadiga parece aumentar a tendência para os episódios durante a noite.

O início do terror noturno na criança pode estar relacionado a eventos recentes traumáticos como hospitalização, falta da mãe em casa, início da escolaridade, morte ou separação de um ente querido.

Em casos de muita freqüência dos episódios é importante passar por uma avaliação do pediatra e (ou) psicólogo. Eventualmente pode ser indicado o uso de alguma medicação sedativa.

 O que se pode fazer quando a criança manifesta os sintomas?

 De um modo geral não há muito que possa ser feito durante os episódios. Apesar de assustador para a família e causar desgaste para todos, a criança dificilmente consegue ter contato com os pais já que se encontra em sono profundo, mesmo que por vezes esteja de olhos arregalados.

Minimizar as situações de estress durante o dia, o uso de massagens antes de dormir ou música suave podem ajudar.

 E os pesadelos, quais são as diferenças do Terror Noturno?

 Os pesadelos ocorrem na fase paradoxal do sono, ou sono REM. Desta forma, trata-se realmente de um sonho de angústia, ao contrário do terror noturno no qual a criança dificilmente lembra do episódio. Durante o ataque de terror noturno, pode haver verbalizações, mas a criança fala coisas desconexas ou parece ver alguma imagem assustadora.

Os registros polissonográficos mostram que a atividade autonômica (sudorese, taquicardia, etc.) é muito maior no terror noturno do que nos pesadelos.

 O pesadelo é considerado um fracasso do sonho. Segundo Freud, a função do sonho é a de proteger o sono, ou seja, possibilitar ao dormidor que continue dormindo. No pesadelo, a angústia do inconsciente chega ao pré-consciente com tamanha força que não sofre as modificações necessárias para se tornar um sonho “mais leve” que permita a continuação do sono.

A criança ou o adulto desperta com muita angústia, às vezes com falta de ar e leve taquicardia e geralmente lembra o conteúdo do que estava sonhando. No pesadelo não se observa o nível de pânico que geralmente é visto no terror noturno. Os pais têm condições de acalmar a criança já que esta acaba por acordar rapidamente.

Na criança, os pesadelos surgem por volta dos dois anos, quando a criança já é capaz de contar narrativas curtas, demonstrando estar alcançando um bom desenvolvimento simbólico e cognitivo. A ocorrência é maior na primeira década de vida.

Quando os pesadelos não são muito freqüentes deve-se ter em mente que é uma manifestação normal do sono e do psiquismo em desenvolvimento. Quando os pesadelos são muito freqüentes e repetitivos, deve ser feita uma avaliação psicológica para investigar sua etiologia. O tratamento poderá ser através de orientações aos pais, psicoterapia infantil e em alguns casos pode-se fazer uso de medicação específica.

 E o Sonambulismo? Quais são suas características principais.

 Este transtorno ocorre principalmente na idade escolar, por volta dos 5 ou 6 anos e vai diminuindo sua freqüência até desaparecer por volta dos 9, 10 ou 11 anos. Raros casos continuam até a idade adulta.

O episódio de sonambulismo se caracteriza pela presença de comportamentos motores complexos, incluindo o caminhar, vestir-se, abrir portas etc. e ocorre durante o sono lento ou NREM. Inicia-se com um sentar-se abrupto na cama e a execução de atos motores grosseiros, repetitivos e automáticos até o levantar-se e caminhar. A expressão facial é estática e os olhos ficam abertos e fixos. Novamente é difícil acordar a criança por ela estar em sono profundo.

Solilóquios (fala durante o sono) podem ocorrer, mas normalmente a verbalização é pobre, limitando-se a murmúrios. Caso a criança acorde ela não relata sonhos, quando isto ocorre, as descrições são apenas imagens fragmentadas e pouco desenvolvidas, isto ocorre por não estar em sono REM.

A criança pode sozinha voltar para a cama e continuar dormindo.

A evolução do sonambulismo geralmente é benigna, não há necessidade de tratamento, mas algumas medidas precisam ser adotadas para evitar acidentes: abrir portas, janelas ou descer escadas, por exemplo.

 Assim como o terror noturno, no sonambulismo também existe uma predisposição genética.

 

*Psicóloga e Psicanalista. Mestre pela Faculdade de Medicina – USP

Membro do Grupo de Pesquisa Avançada em Medicina do Sono-HCFMUSP

  

 


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