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Psicologia e Comportamento.


 

Escrito por Carmen Alcântara*

 

 

“Quando o terremoto e o tsunami atingiram o Japão em 2011, quase todos os estudantes do ensino médio e fundamental de Kamaiashi sobreviveram, pois tinham sido ensinados a reagir. Lá, a defesa contra estas catástrofes está nas mentes das crianças e adultos, é uma habilidade.”

“Habilidades são a chave para o desenvolvimento sustentável em tempos de mudança global. Construir estas habilidades deve começar o mais cedo possível nas escolas.”

(Irina Bokova – Diretora geral da Unesco; Lena Ek – Ministra do Meio Ambiente da Suécia; Hirafumi Hirano-Ministro da Educação do Japão). Folha de S. Paulo- 24/6/12.

 

Este artigo publicado logo depois da Rio +20, me chamou a atenção para as questões envolvidas na aprendizagem escolar e nos problemas de sobrevivência x sustentabilidade que se tornam cada vez mais urgentes de serem solucionados para as próximas gerações.

 

Para ser possível a aprendizagem e o desenvolvimento de novas e antigas habilidades, é necessário que a criança tenha uma prontidão, que requer boas condições físicas, ambientais, sócio-familiares e emocionais.

 

Do ponto de vista neurobiológico e cognitivo, diversos sistemas precisam estar funcionando de forma integrada: memória, linguagem, atenção, psicomotricidade, organização e raciocínio, assim também como as Funções Executivas (FE) que englobam os itens anteriores e vão além.

As Funções Executivas formam um conjunto de funções responsáveis por iniciar e desenvolver uma atividade com o objetivo final determinado – corresponderia a habilidade para manter um “set” de resoluções de problemas, visando um objetivo futuro.

As FE organizam as capacidades perceptivas, mnésticas e práxicas dentro de um determinado contexto, com a finalidade de:

a)    Estabelecer uma meta específica

b)    Determinar o início da tarefa

c)    Planejar as etapas do processo

d)    Monitorar cada etapa do processo

e)    Alterar o modelo se necessário

f)     Seguir ou interromper a proposta inicial

g)    Avaliar o resultado final em relação ao objetivo inicial.

 

A atenção tem um papel fundamental para um bom desempenho das FE e se insere na atividade proposta de acordo com seus subtipos: estado de alerta, atenção sustentada, seletiva, serial, de deslocamento, compartilhada, e os chamados mecanismos inibitórios que excluem os estímulos que não interessam ao objetivo principal.

 

Desta forma, um bom funcionamento das FE permite, por exemplo, a compreensão de textos, no qual a leitura irá permitindo à criança ter uma compreensão daquilo que está lendo e simultaneamente recorrer a informações anteriores, através da memória imediata dos parágrafos anteriores até associações com outras leituras.

 

A estruturação da FE inicia-se precocemente, já nos primeiros meses de vida, quando as regras iniciais da vida vão se estabelecendo (Cypel, 2005).

A participação adequada dos pais, é que irá modelando esses comportamentos precoces e que serão a base de instalação de outros mais complexos. Desta forma, desenvolve-se no bebê, o processo de self regulation, que irá favorecer nos meses seguintes a internalização de regras, disciplina, capacidade de tolerar frustrações e melhores condições cognitivas e emocionais.

 

A permissividade dos pais, ou a educação inadequada, favorece a manutenção de comportamentos regredidos da criança que será incapaz de conviver com as perdas e as frustrações, funcionando como se tudo que quisesse, pudesse ter, no aqui e agora. Como conseqüência, piora sua impulsividade, passando a ser vista como perturbadora e (ou) criança problema.

A atenção torna-se fragmentada e tem dificuldade em manter-se concentrada e ater-se a uma solicitação mais específica. As dificuldades de organização tornam-se acentuadas e a mãe ou a babá passam a fazer aquilo que a criança já seria capaz de realizar, dificultando seu desenvolvimento emocional-cognitivo e autonomia.

 

Na escola espera-se que a criança demonstre um conjunto de habilidades com mais independência e autonomia, organização e capacidade de se manter atento e concentrado as tarefas solicitadas, além de respeitar regras e disciplina para uma boa convivência. Contudo, as crianças que não receberam os limites de forma adequada, e expressam uma incapacidade de self regulation, apresentam dificuldades de aprendizagem e sociabilidade no ambiente escolar. Muitas vezes, são diagnosticadas como portadoras do Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH), quando na verdade precisariam de pais capazes de lhes dar mais atenção, disciplina e limites.

 

Não é preciso dizer que em tempos de mudança global, os indivíduos com bons mecanismos adaptativos, capacidade de resolução de problemas, serão aqueles com maiores chances de sucesso em suas vidas.

Questões como a educação dos filhos para que eles consigam se desenvolver bem e fazer maior e melhor uso das Funções Executivas, podem se tornar a diferença entre reconhecer a chegada de um “tsunami” e sobreviver ou ficar na praia, distraidamente a “ver navios”....

 

 

Referências;

 

Cypel, S. O papel das funções executivas nos transtornos de aprendizagem. In Rotta & Riesgo. Transtornos de aprendizagem. Porto Alegre, Artes Médicas, 2005.

 

 

*Psicóloga Clínica e Psicanalista


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