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Psicologia e Comportamento.


A inapetência da criança


A queixa “meu filho não come” é muito frequente nas consultas pediátricas e normalmente reflete problemas comportamentais e questões da dinâmica familiar.


A alimentação, embora seja uma questão de sobrevivência, é também um ato de relacionamento do indivíduo com o mundo ao seu redor. A relação que o ser humano vai estabelecer com a alimentação ao longo da vida será consequência das primeiras experiências que este indivíduo, enquanto bebê, vivenciar com a sua mãe, sua família e o ambiente a sua volta.


Para o bebê, a alimentação é o momento de contato afetivo e vínculo com a mãe, é fundamental não só para garantir seu crescimento e desenvolvimento geral, mas como fonte de experiências emocionais e condicionamentos socioculturais.


O Comportamento evolutivo alimentar da criança:


Durante o primeiro ano de vida, a criança se relaciona com o mundo por via oral, a alimentação representa uma relação de afeto entre o bebê e sua mãe e durante os seis primeiros meses a amamentação exclusiva ou não vai estabelecendo este vínculo de forma cada vez mais intenso e prazeroso (de uma maneira geral), em intervalos de livre demanda, no início até a mãe conseguir estabelecer intervalos regulares.


A partir dos 6 meses, há a necessidade de se complementar a alimentação que deve ser feita de forma lenta e gradual e segundo alguns autores referem, a própria criança é capaz de estabelecer a quantidade necessária  em intervalos regulares.


Em torno dos 8, 9 meses, quando a criança está um pouco mais autônoma, geralmente engatinhando e começando a estranhar pessoas desconhecidas, podem aparecer comportamentos de recusa alimentar e ataques de fúria. Podemos entender estes comportamentos como normais dentro de uma evolução, na qual, o desmame já se efetuou ou está se efetuando e novos alimentos e novas consistências estão sendo apresentados.  Da mesma forma, a mãe já não necessita estar tão presente e sua ausência/presença se faz notar pelo bebê. Isso significa que a criança já começa a ter rudimentos de representações mentais para distinguir presença/ausência; o que é conhecido e tranquilizador, daquilo que lhe é estranho e, portanto ameaçador. Neste aspecto, as comidas “novas” podem adquirir o valor de “objetos-pessoas” novas que a criança rejeita por medo de perder os “objetos-pessoas” (leites, papinhas, mamãe) que transmitem segurança.


Ao final do primeiro ano e ao longo do segundo, a criança apresenta uma diminuição do apetite conhecida como anorexia fisiológica e, portanto normal, por que há uma desaceleração do crescimento. Além disso, a criança passa a se interessar mais por uma enormidade de objetos e novidades que descobre ao seu entorno. Aos 15 meses, a criança se relaciona com a comida como se fosse brinquedo, ela quer tocar e apertar, sentir sua textura e se divertir com a “sujeira”. Os pais devem permitir essa exploração se estiverem em casa, explicando o lugar apropriado ou não para tal comportamento.


A partir dos 17, 20 meses, a criança já quer comer sozinha e escolher os alimentos, ela também começa a querer participar do mundo dos adultos. É importante fazer refeições familiares, nas quais a criança observa os adultos comendo diversas coisas e onde a criança é estimulada a provar novos alimentos, em um clima afetivo, de harmonia e sem tensões.


Aos 3, 4 anos a criança tem vontade de participar da confecção de alguns alimentos, ajudar a colocar a mesa, juntar-se ao grupo familiar e começa a participar e entender as festividades culturais e sociais.


Aos cinco anos, há uma melhora no apetite, que vai se acentuar aos 8 anos de idade.


 Diante da queixa, “meu filho não come”, a primeira observação do pediatra é em relação ao peso da criança. Em geral, ele encontra a criança com peso normal ou até com sobrepeso. Nos casos em que há certa evolução do peso, mas a altura esperada encontra-se abaixo, diz-se tratar-se de uma anorexia verdadeira. Nos casos em que há um desenvolvimento normal do peso e da altura, dizemos tratar-se de uma falsa anorexia, que traduz a preocupação exagerada dos familiares ou de quem cuida, em querer impor uma superalimentação.


A anorexia infantil verdadeira pode ser de origem orgânica ou comportamental.



Entra as causas orgânicas temos:


- Infecções diversas


- Parasitoses


- Doenças crônicas  


- Disfunções digestivas


- Doenças do sistema nervoso central


- Transtornos metabólicos e outros



Entre as causas comportamentais:


- Distúrbios da dinâmica familiar: perda de um ente querido, nascimento de um irmão, chantagem emocional, falta de limites pelos pais, mudança de uma empregada, tensão familiar, separação dos pais.


- Distúrbios emocionais da criança: negativismo, ajustamento, busca de atenção, satisfação de desejos.


- Desmame inadequado


- Falta de adequação dos pais ou da babá a uma rotina alimentar e as apresentações das refeições.


Como vimos, o apetite pode estar diminuído ao final do primeiro ano pela desaceleração do crescimento, contudo para algumas mães, a recusa do alimento pelo bebê pode remetê-las a outras frustações (quando criança, com relação ao seu papel de mãe, esposa e profissional), parecendo aos olhos dela, uma recusa do reconhecimento de todo esforço que faz , de toda entrega e renúncia de si mesma. Além disso, pode sentir-se culpada por voltar a exercer outras funções como o seu trabalho.


O bebê gorducho e voraz, por sua vez, reassegura a mãe seu papel materno e a desculpa de poder voltar a trabalhar ou de falhas que possa sentir.


Pais ansiosos desencadeiam uma insistência exagerada, provocando uma reação na criança de tensão na hora da mesa, que se transforma numa praça de guerra e onde o prazer de comer é substituído por um desprazer. Desta forma, a criança encontra prazer naqueles alimentos que estão em geral fora da mesa e que ninguém insiste para que comam: os lanchinhos.


Distrair a criança para que esta coma sem perceber, também não é adequado, pois a criança irá se acostumar a não perceber o que come, não sentir prazer na comida ou a comer futuramente de uma forma automática, sem percepção  do ato, como forma  de suprir carências ou se acalmar comendo, o que é  um caminho fácil para a obesidade.


Portanto, como dizem os pediatras antigos, “em casa que tem comida, criança não passa fome”.


Não forçar e não distrair a criança para ela comer, a insistência só aumenta a aversão à comida. Se a criança se recusa a comer alguns alimentos, ir trocando por outros e depois de um tempo, voltar a apresenta-los novamente.


Deixar o bebê pegar na mão, cenoura e tomate e outros, lembrar que as frutas contêm os mesmos minerais e fibras que os legumes (seu carboidrato é o açúcar ao invés do amido), caso não queiram os legumes. Desta forma, as frutas em pedaços, cozidas, cruas ou em sucos podem substituir os legumes por um tempo.


Não acostumar o paladar da criança com alimentos muito doces e oferecer as refeições em intervalos regulares. Caso não queira comer, fazer a criança esperar até a próxima refeição.


Em casos mais complexos, pedir a orientação do pediatra ou psicólogo para uma avaliação e uma intervenção mais específica.


Artigo escrito por: Carmen Alcântara (Psicóloga Clínica e Psicanalista)

 


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