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Psicologia e Comportamento.


Sobre bebês macacos e humanos: medidas preventivas contra a ansiedade, estresse e condutas antissociais.                                                                 

                                                                                                                                               * Carmen Alcântara

Sabemos por meio de pesquisas e observações da vida, que crianças expostas muito cedo a maus tratos, privação afetiva ou negligência, tornam-se com grande frequência, crianças, adolescentes e adultos ansiosos (e) ou antissociais, entre outros problemas. Vemos aí um exemplo do impacto ambiental sobre as predisposições genéticas, afetando para mais ou para menos o desenvolvimento destas crianças.

Recentemente, pesquisadores de primatas, Frans de Waal e Zanna Clay, resolveram testar o que acontece com macacos bebês que passam por situações traumáticas, para tentar traçar um paralelo com os seres humanos em situações parecidas e confirmar ou não, mais uma semelhança com nossos ancestrais.

Para isso escolheram os bonomos, que têm a fama de serem mais amorosos do que outros macacos. Fizeram esta pesquisa no santuário de primatas na República Democrática do Congo e perceberam que filhotes destes macacos que ficaram órfãos muito cedo devido à morte de suas mães por caçadores, se comportam de modo menos empático com seus companheiros, do que outros que foram criados por suas próprias mães.

Os macacos órfãos são levados para o Centro de Proteção e criados por mulheres individualmente. Quando são colocados juntos com os outros macacos, eles se revelam menos propensos a consolar colegas que se saem mal em uma dada situação, como em uma briga, por exemplo, enquanto que os macacos criados por suas próprias mães (que não sofreram situações traumáticas) se comportam sempre prontos para abraçar, beijar e acariciar os colegas que se acham numa pior.

De acordo com Marcelo Leite, articulista da Folha de S. Paulo e que escreveu sobre este assunto (20/10/2013), alguns pesquisadores estão indo buscar as causas destes comportamentos em uma ciência nova chamada epigenética, que é um ramo da biologia molecular e que estuda um sistema de marcações que se interpõem sobre as longas fitas enroladas dos cromossomos. Desta forma, o gene tem dificuldades de se expressar e a hipótese é a de que estas marcações adquiridas sejam o veículo para o ambiente influir na produção de certos hormônios ou neurotransmissores, por exemplo.

Estas hipóteses começaram a ser estudados em 2004, pela Universidade McGill (Canadá). Michael Mearney e Moshe Szyf mostraram como os filhotes de ratas que os lambiam muito, se tornavam adultos menos estressados e tinham mais receptores glicocorticoides, importantes na modulação de hormônios do estresse.

Como ilustração destas pesquisas, relato o atendimento psicoterápico de uma criança de 5 anos com um tipo de ansiedade social, denominada “mutismo seletivo”.  Esta criança só falava e se sentia à vontade em sua casa com os familiares mais próximos. Fora de casa, na escola, casa de parentes e festas infantis, quase não se comunicava, ficando sempre quieta e grudada na mãe, com um semblante triste ou de muito medo. Na escola, acompanhava bem o conteúdo acadêmico, contudo só se relacionava com uma criança e não falava com a professora e outros coleguinhas.

Em seu histórico, logo que nasceu sua mãe não a reconheceu como a filha que esperava achando ela parecida com uma “oncinha” e não como um “carneirinho”. Disse-me que a filha era muito voraz ao seio, machucando-a e que também a arranhava com as mãos.  Entregou a filha aos cuidados de uma enfermeira, que era extremamente “competente” nos horários e assepsia, mas pelo visto era também muito pouco afetiva.

O vínculo mãe e filha ficou assim cortado nos primeiros meses, pois  a mãe estava deprimida e insegura e evitava pegar sua filha no colo.  A enfermeira assumiu inteiramente os cuidados da menina. Depois de uns meses, a mãe foi melhorando, conseguiu resgatar o vínculo com a filha, mesmo sendo muito difícil, pois segundo ela, a criança era difícil e agressiva e piorou muito com o nascimento da irmã. Na medida em que a irmã foi crescendo e aparecendo, sendo esta última uma criança meiga e dócil, a filha mais velha, foi se tornando cada vez mais ansiosa e calada em situações sociais, chegava inclusive a apresentar suores nas mãos, rosto lívido e taquicardia em determinados momentos.

A psicoterapia infantil em conjunto com o acolhimento da angústia e culpa materna e orientações a esta, permitiu à criança, depois de um longo tempo sem que ela falasse uma palavra durante as sessões, um espaço para a criança conseguir se expressar através do jogo lúdico, desenhos, mímicas e finalmente a palavra.  Muito devagarzinho começou a se soltar cada vez mais durante as sessões comigo, na escola e em outras situações sociais, passou a se sentir mais confiante de si mesma.

Portanto penso que, se Freud estivesse vivo diria que o traumático pode ser impresso no DNA das células (epigenética), contudo em muitos casos, conseguimos realizar a (des)impregnação das marcas que obstruem o fluxo do desenvolvimento saudável, através da psicoterapia, associada ou não a medicação (quando necessária).

Diria também que continua válida sua teoria do desenvolvimento libidinal, na qual, a criança só se constitui enquanto sujeito (integrado e autônomo), quando o ambiente propicia um bom vínculo objetal, ou seja, relacional, com os primeiros “objetos de amor”: a mãe, o pai ou quem cuida com disponibilidade e amor daquele bebê que é sempre único!

 

*Psicóloga Clínica e Psicanalista


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