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Psicologia e Comportamento.


Sono, tecnologia e adolescentes

O sono é uma das funções biológicas e psíquicas essenciais ao ser humano e uma das mais frágeis, pois eventos internos ou externos ao organismo facilmente o perturbam.

A privação de sono traz consequências para vários sistemas do indivíduo como o metabólico: elevando a produção do hormônio da fome (grelina) e do stress (cortisol), inibindo ou diminuindo a produção de melatonina, hormônio produzido pela glândula pineal no cérebro responsável por induzir o sono e ser o hormônio do crescimento, além de outras funções reparatórias no organismo.

O sistema imunológico também é afetado, diminuindo a capacidade do organismo de se defender contra doenças assim também como diminui a capacidade de memorização e aprendizagem. A regulação do humor é perturbada e podemos dizer que o sono é um dos maiores estabilizadores do humor.

Nosso sistema nervoso utiliza o ciclo claro/escuro como sinalização do ambiente para sincronizar seus ritmos. A luz artificial tem efeitos semelhantes ao da luz natural sobre o nosso sistema circadiano, que regula o ritmo de dormir e acordar.

Uma das maneiras pela qual a luz altera a expressão dos ritmos biológicos é por meio da inibição da secreção de melatonina pela glândula pineal. Falamos na existência de uma “noite biológica” que é caracterizada por altos níveis de melatonina, que modificam o funcionamento do organismo como um todo.

A exposição à luz artificial reduz a produção de melatonina, o que implica em alterar a arquitetura do sono e seus ritmos biológicos, causando impacto na qualidade de vida das pessoas. Os sintomas mais aparentes são: sonolência diurna, dificuldade de concentração, irritabilidade, depressão e aumento do apetite pela produção anormal do hormônio da fome.

 Em um artigo recente na Revista sleepscience.com.br, a pesquisadora portuguesa Teresa Paiva, investigou a influência dos “sleep stealers” na duração do sono dos adolescentes.  Os autores investigaram também como comportamentos de risco entre os adolescentes poderiam estar associados ao tempo de sono dessa população.

O estudo teve a participação de 3.476 estudantes com idade média de 14 anos e meio. Os adolescentes com débito de sono igual ou maior que 3 horas, foram classificados como privados de sono, (débito de sono foi igual a diferença de horas de sono entre o final de semana e dias da semana). Um questionário foi utilizado para avaliar os sleep stealers: tempo utilizando o computador; uso do aparelho celular e tempo assistindo TV. Da mesma forma, um questionário foi utilizado para investigar comportamentos de riscos: comportamento sexual precoce; comportamentos violentos; uso de álcool, tabaco e drogas.

Os principais achados do estudo demonstram que os adolescentes privados de sono apresentaram maior tempo de uso de computador e internet, bem como maior prevalência de comportamentos de risco. A privação de sono tem um efeito preditor nos comportamentos de risco, como o uso de tabaco, álcool e outras drogas.

Sabemos que o sono é um dos responsáveis pela estabilidade psíquica e que a adolescência é um período turbulento emocionalmente devido às rápidas e intensas mudanças físicas e psicológicas. Privados de sono, estes adolescentes encontram condições mais favoráveis para a desestabilização emocional, o que provavelmente faz aumentar as chances de comportamentos de risco.

Com certeza não podemos explicar estes comportamentos só pela privação de sono, sabemos que a adolescência é uma fase de maior impulsividade, autoafirmação e necessidade de identificação no grupo a que pertencem, contudo, a privação do sono é mais um gatilho (importante) para a desestabilização psíquica e desencadeamentos de algumas patologias mentais como a depressão, por exemplo.

Dessa forma, indico alguns cuidados e dicas para os pais em relação aos seus filhos adolescentes para que estes possam dormir melhor.

Explicar a importância do sono para um bom equilíbrio físico, cognitivo e emocional e o quanto a luz artificial, principalmente a azul, à noite, dificulta a indução do sono.

Certificar-se que seu filho não fica na cama usando o celular e se for preciso, confiscar o celular à noite. Quanto mais cedo o hábito de não permitir que a criança leve o celular para o quarto, melhor.

 Lembrar que a melhor forma de ensinar é dando o exemplo!

Explicar aos filhos que noites mal dormidas causam maior irritabilidade, crises emocionais, falta de concentração, dificuldade de aprendizagem e aumento de apetite, principalmente para doces.

Ensinar bons hábitos de higiene do sono, evitando: café, chocolates e bebidas coladas à noite, exercícios físicos intensos muito tarde da noite.

Regular o tempo de uso de celulares, computadores e TV. Alimentação mais leve a noite, usar técnicas de relaxamento/meditação, música suave, quando há dificuldade para iniciar o sono.

Lembrar que o uso de remédios indutores do sono (com exceção dos fitoterápicos como passiflora e valeriana), só com orientação médica. Que a melatonina, vendida nos EUA como natural e suplemento alimentar, é na verdade um hormônio produzido pelo cérebro e que não pode ser tomado continuamente sem pausas, pois o cérebro pode entender que não precisa mais fabricá-la. Atenção especial, neste caso para o uso em crianças e adolescentes, devendo haver orientação de um especialista.

Explicar que o álcool e drogas como a maconha propiciam um relaxamento, mas que ao mesmo tempo, produzem um sono de pior qualidade, mais leve e com vários micro despertares, além dos outros malefícios.

Explicar e lembrar sempre que drogas como o ecstasy (bala) e cocaína são altamente excitatórias do sistema nervoso central e impedem o início do sono  provocando o “fritar na cama”, além de outras tantas consequências.

Lembrar que quem dorme pouco sonha pouco, quem sonha pouco, ri menos, aproveita menos, aprende menos... vive menos!

 

Carmen Alcântara – Psicóloga Clínica e Psicanalista

Mestre em distúrbios do sono pela Faculdade de Medicina da USP


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